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Equipe Diocese São Luíz


4º Dom José Vieira de Lima, TOR




Ordena??o Diaconal: 1958-12-07
Ordena??o Sacerdotal: 1958-12-07
E-Mail:
Idade:88anos
Endereço:
Telefone:
Paróquia: Paróquia São Luiz de Cáceres





BIOGRAFIA



Agora que tive a sorte de chegar aos 82 anos, sinto que estou apreendendo do que trata a vida, o que é uma vocação e o que é ter um ideal. Conforme o tempo passa, fica mais claro para mim que, ao concluirmos a vida aqui na terra, devemos medi-la pelo nosso grau de satisfação com aquilo que vivemos e conquistamos.



Essa vida foi abençoada de tal forma que constantemente sou levado a crer que Deus realmente existe e está fortemente presente na minha caminhada. Sua existência tem que ser verdadeira, senão, como tantas coisas boas poderiam acontecer a um mesmo ser humano?



Enfrentei muitos desafios na vida, mas sempre que minhas esperanças se esvaiam algo de bom acontecia e me ajudava a manter vivos o meu ideal e os meus sonhos. Essas experiências foram muito boas para serem apenas, mera coincidência. Às vezes penso que a minha pessoa deve ter tido tanta benção e tanta graça.



Ainda tenho muito que fazer para atingir meus objetivos, mas já posso sentir grande satisfação chegando sempre ao meu encontro, conforme vou vivendo ao longo destes anos, que encaro como o outono de minha vida.



Nasci em Poconé no dia 10 de junho de 1931. Naquele tempo Poconé era uma pequena e pacata cidade bem do interior de Mato Grosso. Mas já era uma região pantaneira exuberante e de uma riquíssima natureza. Nasci, portanto, olhando o pantanal de céu aberto e de imensa planície, sendo por assim dizer, envolvido pela magia de  uma natureza tranquila e abençoada.



Com as andanças pelas matas e campos com meu pai, ele ia me ensinando a viver e conviver com o pantanal, com os pássaros, com as aves multicoloridas e admirar o majestoso tuiuiú com seu passo cadenciado e imponente, qual senhor soberano de tanta beleza.



Os meus pais são nativos do pantanal e nossa família composta de cinco irmãos: Maria, eu, Helena, Antônio e Julita. Helena e Antônio já faleceram.



A minha infância, como toda criança daquela época, era muito simples, sendo que o mais importante era montar e andar a cavalo colecionando as corridas e os tombos. Por graça de Deus vivi num espaço muito particular que alimentou e iluminou minha infância.



Três referências marcantes dos meus primeiros anos marcaram minha vida: A família, a Igreja e a escola.



Há 30 metros, em frente da igreja matriz,  era nossa casa.  Ao lado direito  da matriz o convento dos freis franciscanos da TOR e, anexo, a Escola São Francisco, animado e administrado pelos freis missionários de origem francesa.



Cresci embalado por esses três pontos geográficos fortes e determinantes na minha formação religiosa e intelectual. Numa ponta a família, na outra a escola e bem no centro a Igreja. Foi nesse cenário que cresci e alimentei os primeiros anos de minha existência.



Os meus pais foram cristãos praticantes e piedosos. Minha mãe de missa e comunhão diária,  era membro da Obra das vocações, um grupo de senhoras que se reuniam para rezar pelas vocações.



Minha caminhada na comunidade eclesial seguiu passo a passo: sineiro, coroinha, acólito, membro da cruzada e da irmandade São Vicente de Paula, aqui com a tarefa de visitar os pobres e enfermos.



Os estudos primários e ginásio foram na Escola São Francisco tendo os frades como professores. Apraz-me lembrar de alguns, entre eles,  Fr. Bernardino Coeste, Fr. Francisco Herail e Fr. Carlos Valette. O ambiente escolar era agradável e sadio. Pela manhã aulas e à tarde estudo. Quinta feira era dia de esporte, ginástica e passeio pelo cerrado em busca de frutas e de lenha. No domingo havia missa, catequese, formação humana e leitura do Evangelho.



O tempo corria rápido e agradável. Embora o regulamento fosse rígido e exigente, o convívio amenizava a vida e os dias.



Chegou o dia de decisão - partir, deixar a família, a casa e os irmãos. Foi um momento difícil e doloroso. Não é fácil deixar as pessoas e os lugares queridos. Mas o chamado era forte e o momento exigente. A fé e a fortaleza de minha mãe ajudaram-me a dar um passo decisivo e partir para o seminário em São Paulo. Foi uma partida para o desconhecido. Novidade sobre novidade. Tudo diferente. Foi um momento duro de aguentar e superar. Deus estava presente e devagar, as barreiras foram superadas. De repente, sem a gente perceber tudo parecia normal. Na década de 40, no pós-guerra, sair de Poconé para viver em São Paulo era uma verdadeira aventura. Noviciado, Filosofia, Teologia e em fim o sacerdócio. Minha ordenação se deu em 7 de dezembro de 1958, na Igreja Nossa Senhora de Fátima, em São Paulo.



Começa então minha vida de Padre. Padre franciscano e missionário. Vocacionado e consagrado a Deus no serviço da Igreja a gente sente que Jesus é o coração de nossa vida, de nossa vida espiritual e de nossa espiritualidade. Sempre, no fundo de minha alma, desejava ser consagrado a Deus para servir as pessoas. Pois era bem forte em minha vida o trabalho dos freis em Poconé. A dedicação o desprendimento; a vida humilde sempre me inquietava e animava.



A cor de nossa vida é tanto mais viva e ensolarada, a pulsação de nosso coração espiritual é tanto mais firme quanto mais nós vocacionados nos identificamos com Cristo, quanto mais Ele for o  ideal de nossa vida e o ponto referencial de nossa opção.



Ser Padre é receber, graciosamente, uma graça que se chama Jesus. Por Ele é que nos vem todas as graças, pois Ele é a dádiva revelada por Deus. E nosso sacerdócio é fecundo, na medida em que participamos de sua graça de coração aberto e espírito agradecido.



Sim, seguir o Evangelho, comprometer-nos com o Reino significa gravitar, de forma sempre mais definitiva, absoluta e dependente, em torno deste centro unificador e propulsor que é Jesus Cristo. É Ele quem forma, informa e transforma, quem revela e fortalece, resgata e transcende nossa realidade humana. É Ele quem acende no coração do Padre a paixão profética por Deus e a compaixão para com os Pobres. Ser padre, ser de Cristo, consequentemente, se é uma opção, feita na liberdade, é igualmente um comprometimento para a superação de todas as escravidões que ainda deforma-o e silencia a palavra viva de Deus, revelada em Jesus no coração de todos os consagrados.



Um dia fui chamado para ser bispo de Marabá-PA. A notícia me espantou e deixou-me perplexo. Fui com o objetivo de buscar a força da oração e das luzes do Espírito Santo. Procurei alento juntos aos irmãos e amigos que me acudiram com presteza e carinho. Dei o meu sim e mais uma vez parti para o desconhecido.



          Para esta nova missão  escolhi como lema “Servir e não ser Servido” (non ministrari sed ministrare) ( Mc 10,45). Parti então para o serviço.



Considero que é essencial para um vocacionado, antes de tudo, ser servo. Pois, quem se reconhece servo, procura controlar a própria tendência de mando de chefia e de poder e reconhece seu valor em ser filho de Deus e chamado para servir. “Pois aquele que entre vós for o menor esse é o maior” ( Lc 9,48) ( Mc 10,43).



Assim, procuro cultivar em mim, como qualidade fundamental, a capacidade de estar a serviço e amar o próximo. Tenho que lutar,  por conseguinte, para que a vida seja respeitada e para que os pobres não se desesperem, mas tenham ânimo e confiança. Tenho consciência que devo carregá-los, mesmo nas suas fraquezas, assim como, em seus sonhos, projetos e lutas: “Carregai os fardos uns dos outros, assim cumprireis a lei de Jesus Cristo”. (Gl 6,2: Rm 10,38).



Tenho certeza que o verdadeiro servo é responsável, disponível, atento, capaz na caminhada de oferecer às pessoas oportunidade de diálogo fraterno e de entendimento mútuo.  O servo é aberto, disponível, paciente, acolhedor, sempre atento e pronto para oferecer às pessoas uma oportunidade, um diálogo, um encontro, uma atenção e uma dose de amor.



          Quando fui chamado para servir à Igreja Particular de Cáceres, levei um susto, um abalo, pois nunca imaginava e nem sonhava que isso acontecesse. É muito raro um bispo ser pastor da sua Diocese de Origem. Aos poucos o susto foi passando e senti que minha vocação missionária me chamava para essa nova missão. A gente tem que superar a si mesmo para ser dócil ao Espirito Santo. Vocação e missão não são questões particulares, gosto ou desejos individuais, nem questão de docilidade ao Espírito. A mim estava claro que a pessoa amadurece, assumindo suas responsabilidades dentro da comunidade, tendo em vista o bem comum.



A graça do Senhor quis oferecer-me mais uma oportunidade para crescer e amadurecer. Chamando-me para viver a serviço como bispo em Cáceres, em pleno pantanal, à beira do rio Paraguai, entre campos e montanhas em pleno extremo oeste do Brasil e de Mato Grosso.



Cheguei a esta Diocese justo para celebrar o Natal de 1989.  Apesar de desejado, foi um salto mortal muito exigente. Com minha reduzida experiência, encontrei-me no centro de uma novidade pastoral de grande interesse: as Comunidades de Base. Caminhada que oferece a vocação participativa dos leigos, como sugerem os documentos da Igreja, que acreditam e recomendam uma Igreja toda ministerial e participativa.



Na Diocese de São Luiz de Cáceres vivem, atuam, entrelaçam-se, complementam-se 23 Paróquias, com as devidos conselhos, equipes de catequese, liturgia, dizimo, pastoral familiar, juvenil e das CEB's.



Da para imaginar os desafios que repentinamente surgiram à minha frente. Eu que vinha de uma região de conflitos de garimpos, de pistoleiros e de morte. Ai, com a ajuda dos padres, das religiosas, dos religiosos, com a acolhida do povo, com a paciência das pessoas engajadas, pouco a pouco, a caminhada de pastor foi fortalecendo as comunidades com a espiritualidade bíblica, a solidariedade, a partilha de decisões e serviços, a valorização das pessoas e a ajuda comunitária mútua. Não esqueçamos  de registrar o compromisso de assegurar a formação humana bíblica e social dos animadores  e animadoras, responsáveis pelos serviços.           Para quem chega tudo é novo. Tudo é novidade. Mas logo de chegada constatei que o povo é acolhedor, demonstra afeto e respeito. Diante dessa perspectiva procurei ter uma visão contemplativa da realidade.



Assim, Jesus Cristo se encarnou: quer dizer que a situação corporal, com tudo aquilo que comporta é digna de Deus, pois, o lugar do encontro com Deus é o mundo humano, é a história de um lugar, de um povo. A Diocese de Cáceres tem um corpo humano, tem uma história e uma cultura: estas são suas raízes.



Assim, a visão contemplativa da realidade é descobrir a própria realidade – a natureza, os outros, a trajetória como lugar de encontro com o Senhor, pois, é nela que Deus se revela, atua, chama. Portanto, trata-se de um lugar privilegiado pelo encontro com o Senhor é a realidade, são os outros. Mas é a oração que nos oferece os elementos para descobrirmos Deus na realidade e na história. Todos nós sabemos que encontramos o Senhor na vida, mas que, para sabermos quem é Ele mesmo é preciso que o conheçamos na oração.



Procurei olhar a nova realidade com uma visão contemplativa, isto é, iluminar a realidade com a luz da fé, a qual não elimina as demais perspectivas, mas as integra. Parti então para viver a visão contemplativa da realidade,  prestando atenção nas pessoas, observando os valores de cada pessoa, os limites presentes em cada um e nos acontecimentos e na história.



Essa é a minha trajetória. Aqui em Cáceres continuo meu trabalho simples de vocacionado, acolhendo as pessoas, animando-as e despertando nelas a força da esperança. Reconheço que nada fiz de grande, de extraordinário, apenas me apliquei em caminhar na simplicidade, seguindo o carisma franciscano. Sou simplesmente um servo, cuja vocação é servir.



Louvo e bendigo o Senhor por poder trabalhar pelo Reino, aqui, nesta região de natureza exuberante do pantanal, lugar privilegiado, de extraordinária beleza e encantamento. Comovido e com muita gratidão posso dizer que minha vocação, meu sacerdócio são bênçãos  e graças que recebi do Senhor. A vida, a vocação e suas realizações são presentes do coração de Deus. Assim o tempo passa, a vida corre e a gente pode vivenciar a beleza, o encanto, o tesouro, o amor e a ternura de nossa vida de consagrado.



A nossa vocação é para a plenitude e a felicidade por isso é graça, é luz, é beleza e realização. “Deus nos amou em primeiro lugar, nisto consiste o amor: que Deus nos amou por primeiro ( Jo 15,10).



Depois desta longa caminhada de 63 anos de vida consagrada, sendo 40 de padre, 23 anos de Bispo, resta dizer que a vocação deve ser vivida de coração aberto. Viver e amar a vocação com a espontaneidade pura e apaixonada de uma criança.



A vocação tem a interioridade profunda e a dimensão misteriosa de um rio sagrado. Somente a conquistamos quando, de coração aberto, nos deixamos por ela cativar. Não somos nós os criadores da vocação, é ela quem nos guia, abraça e alimenta, respira e inspira, que entra em nós e nos ilumina, transforma e fortalece.



Deus é graça, somente graça, nada mais que graça. Quando Ele Chama alguém Ele o faz com Graça. Amém.