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Equipe Diocese São Luíz


Pe. Jair Fante




Ordena??o Diaconal: 1990-12-23
Ordena??o Sacerdotal: 1991-01-26
E-Mail: jairfante@gmail.com
Idade:58anos
Endereço: Av. Gonçalo Botelho de Campos,2345 - Cristo Rei, Várzea Grande -MT 78.118-070
Telefone: (65) 3029-1261
Paróquia: Paróquia São Luiz de Cáceres





BIOGRAFIA



Conhecer a origem das coisas é importante para quem está caminhando neste mundo. Quem não sabe de onde vem tem dificuldades de perceber onde está e para onde vai. Há uma relação muito próxima entre o que se aprende e vive na família e as decisões e atitudes que se toma diante da vida. Sabemos que toda pessoa depende de outro ser humano, homem e mulher, para vir a este mundo. Nascemos dependentes e se não fosse um pai e uma mãe para cuidar de nós ainda crianças frágeis, não resistiríamos à fome, sede, calor, frio e outras intempéries da vida. Nesta relação de dependência é que nos desenvolvemos como filhos e filhas tendo o mesmo sangue, morando na mesma casa, aprendendo os mesmos costumes. Cada um de nós tem a sua história de família. É nosso valor herdado naturalmente. Esta história acaba por interferir, de modo significativo, nas decisões futuras que tomamos. Nossos pais e avós começaram uma história que continua em nós.



Nasci no dia 05 de abril de 1961, em Santa Albertina – SP. Sendo o quinto filho, em um total de oito na família, não é difícil entender o contexto da minha origem. Seis mulheres e dois homens compõem o ambiente familiar da família FANTE. O pai, Sebastião Fante (in memoriam), uma pessoa simples, mas que não se acomodava às conquistas da vida estava sempre em busca de um novo porto para ancorar seu barco e amparar o núcleo familiar. É verdade que por detrás e antes de cada vocação ao sacerdócio e à vida consagrada, há sempre a oração forte e intensa de alguém: uma avó, um avô, uma mãe, um pai ou uma comunidade. Onde quer que estivéssemos, íamos todos, com os pais, à missa dominical. Foi por isso que Jesus disse: “Rezai ao Senhor da messe para que mande operários para a sua messe”. As vocações, portanto, nascem na oração e da oração, e só na oração podem perseverar e dar fruto.



Da mãe, Benvinda Gouveia Fante, humilde e cuidadosa nos detalhes do viver, vieram os grandes ensinamentos. Viver bem não depende de grande desenvoltura cultural e livresca. Nem tudo também precisa ser explicado, afinal, toda explicação só serve para quem quer entender. A própria vida acaba ensinando o que o ouvido descuida na compreensão. A vida, na verdade, só pode ser compreendida a partir do conjunto da obra e não a partir de um ou outro fato, por mais intenso e significativo que tenha sido.



Portanto, da inquietação do pai, herdei a postura; da vida simples e cuidadosa da mãe, a compreensão do dia a dia. Estes dados marcariam as decisões, atitudes e visão de mundo que levo comigo. Daí, portanto, nenhum mérito me concerne, apenas o privilégio de nascer nesta família. Uma simples e rica herança.



Por onde Passei?



O caminho se faz caminhando, assim como amar se aprende amando. Ninguém chega ao fim almejado sem ter dado os primeiros passos. Buscas, anseios, decisões e atitudes são fundamentais na vida e compõem a caminhada. Às vezes chega-se a encruzilhadas onde o caminho à frente não é claro. Escolher um trajeto implica, comumente, em excluir outros. Toda escolha vem acompanhada de inseguranças e incertezas. Entra em sena então a confiança em algo ou alguém que está acima do evidente, do constatável a olho nu. É esta mesma confiança que Jesus tinha e que pediu aos discípulos: “foi-me dada toda autoridade no céu e na terra. Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações e batizai-os em nome do Pai, do Filho e do espírito Santo. Ensinai-lhes a observar tudo que vos tenho ordenado. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28, 18-20).



O seguimento de Jesus implica em decisões a curto, médio e longo prazo. Há estratégias momentâneas e opções definitivas. Os estudos filosóficos, teológicos e graduações vieram como valores agregados de grande valia e necessários para o trabalho ministerial. Feito este processo de qualificação, vieram as ordenações diaconal e presbiteral, sendo o primeiro padre ordenado na cidade de Pontes e Lacerda em 26 de janeiro de 1991.



Comecei meu trabalho ministerial na Paróquia São Luis de Cáceres – Catedral – onde fiquei por 6 anos. Respondendo às necessidades da Igreja, fui fazer mestrado em Liturgia e Teologia dos Sacramentos em Paris – França. Depois de exercer, por certo tempo, o ministério no Texas – EUA, retornei ao Brasil onde, por 7 anos, servi à CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) como Secretário Executivo do Regional Oeste 2, sediado em Cuiabá – MT. Solicitado a dar cursos no Canadá para lá me desloquei, permanecendo por mais 2 anos na Arquidiocese de Toronto, trabalho este que continua, agora de modo pontuado anualmente. O mesmo processo se deu em seguida servindo à Diocese de Asti, na Itália. Retornando ao Brasil em 2010, assumi a coordenação diocesana de pastoral em minha Diocese de origem, Cáceres.



Onde estou?



O ato de VIVER comporta três elementos indispensáveis: o PASSADO: sem o qual ninguém existe, porém, impossível de ser mudado; o PRESENTE: com os valores e as incongruências próprias do seu tempo; o FUTURO: sujeito de expectativas e projetos a serem realizados. É neste quesito que devemos atentar, quando falamos, escrevemos ou ensinamos alguém, pois as gerações futuras entrarão em contato com o nosso pensar, expresso no falar, no escrever ou no viver.



O respeito pela história e o trato amigável, mesmo com quem pensa diferente, devem compor o ensinamento principal de uma pessoa e serem, ao mesmo tempo, uma escola de erudição para o viver com qualidade. Saber onde se está no desenvolvimento histórico da pessoa é condição para o bem viver e para a compreensão do seu entorno. Não se pode ser guia tendo perdido a rota do caminho.



Depois de 22 anos exercendo este ministério, percebo a importância da atualização permanente dos conteúdos tanto filosóficos quanto teológicos. Vivendo em uma “mudança de época”, como muito bem constata a 5ᵃ Conferência de Aparecida, necessário se faz, além de atualizar os conteúdos, rever também os métodos de trabalho. Tanto o conteúdo da fé quanto os métodos de trabalho devem responder adequadamente às necessidades do homem e da mulher do tempo atual, amando-os em seus valores, mas também em suas dificuldades. O presbítero, portanto, tem que ser um homem atualizado, pois, uma das dinâmicas fundamentais da existência humana, quando vivida com seriedade e intensidade, assenta-se na experiência de interrogar o seu entorno e interrogar-se. 



Quando nós presbíteros vivemos estas dimensões, mesmo estando localizados no tempo e em um determinado espaço geográfico, tornamonos servos de um horizonte bem mais largo, sem fronteiras, na verdade.



Para onde vou?



“Não basta o vento favorável se o barco desconhece a direção do porto”, dizia o poeta Sêneca, da Roma Antiga. A vocação aponta para o futuro da pessoa. Por isso,  pode-se dizer que uma vocação acertada comporta um futuro feliz. O próprio apóstolo Paulo, autor do lema, ao qual estamos nos referindo, completava: “uma coisa, porém, faço: esquecendo o que fica para trás, lanço-me para o que está à frente. Lançome em direção à meta, para conquistar o prêmio que, do alto, Deus me chama a receber, no Cristo Jesus” (Fl 3, 13-14).



O mesmo Paulo, escrevendo ao amigo Timóteo, assim se expressa: “combati o bom combate, terminei minha corrida, guardei a minha fé” (II Tm 4, 7). Ele termina esse trecho dizendo: "guardei a minha fé". Isso quer dizer que não largou do evangelho um minuto de sua vida. Sua vida foi levar o Cristo aos outros que não o conheciam. E não abandonou essa fé por problema nenhum, por prisão nenhuma, por perseguição nenhuma. Isso é um grande exemplo para nós cristãos. Não abandonemos a nossa fé e deixemos que nossa vida seja conduzida por Cristo.



Saber que Deus nos ama, que ele tem uma proposta e que tudo fará para concretiza-la, permite-nos avançar sem medo, em direção às promessas de salvação advindas dele. É esta confiança que traz em seu bojo a esperança na realização das promessas de Deus. É neste contexto também que se pode encontrar o sentido da vida: amar, fazer-se amar e servir. A jornada é longa, mas o horizonte é largo e abrangente. Lema sacerdotal: “Sei em quem coloquei a minha confiança” (2Tm 1,12)



O ato de confiar envolve vários elementos e posturas fundamentais no ministério presbiteral, assim como na vida de cada pessoa.



+ Confiança em si mesmo: a confiança, quando é verdadeira e bem cultivada, envolve a pessoa na sua totalidade e dá uma nova direção à vida. A Bíblia nos apresenta vários personagens portadores deste tipo de confiança, tais como: Abraão, Moisés, Maria, Paulo e tantos outros. Esta confiança nasce do encontro com Deus, implicando em questionamentos como: o que Deus quer de mim? O que devo fazer para realizar minha missão neste mundo? Como devo viver e me relacionar com tudo o que me circunda? É destas perguntas que nasce uma resposta firme e segura diante de Deus: “Senhor, eis-me aqui; envia-me”! Sem esta confiança relacional com Deus, o homem pode idolatrar o mundo ou querer tomar o lugar do próprio Deus trazendo como consequência o vazio existencial.



O caminho sem Deus é desaconselháveis porque não leva à realização do ser humano, pois a vida cristã significa adesão ao projeto de Deus e a tudo que dele procede. Isto implica em verdades e afirmações de fé que nos vem desde a vida familiar e dos ensinamentos da Igreja, a grande família de Deus. A confiança é, sem dúvida, o aspecto fundamental e característico da atitude do cristão. Quem acredita não só confia naquele em quem acredita, mas, acima de tudo, acredita porque confia.



+ Confiança na família: a família é o “santuário da vida”; é nela que a vida nasce, cresce e deve ser cuidada até o seu desfalecer natural. Tenho a graça de ter nascido em uma família generosa, tanto em quantidade – oito irmãos - quanto em qualidade.



Vivemos em tempos marcados pelo pluralismo de ideias e de valores, por contradições em diferentes âmbitos, por desigualdades de diversas espécies, por mudanças e transformações rápidas e implacáveis, o que gera perplexidade e desorientação no mundo familiar. Uma família bem fundamentada ajuda no sustento e desenvolvimento pleno e integral da pessoa. O acolhimento, o amor, o serviço material e afetivo devem constituir sempre a nota distintiva de uma família cristã. É por estes e outros elementos que podemos chama-la de “Igreja Doméstica”.



Uma família, consciente de seus direitos e deveres, traz, em si, ralações mais fraternas tanto no âmbito familiar, comunitário quanto social, influenciando diretamente na construção de uma sociedade mais justa e fraterna. É tarefa da família cristã, educar a pessoa para o amor e para agir com amor em todas as relações humanas, de forma que o amor fique aberto à comunidade inteira. A família torna-se assim, a escola principal do seguimento de Jesus; um lugar onde se acolhe, se vive, se celebra e anuncia a palavra de Deus. É deste ambiente que nasce as mais variadas vocações e dons que Deus oferece ao seu povo. Não é por menos que cantamos em nossos encontros e celebrações: “que a família comece e termine sabendo aonde vai, e que o homem carregue nos ombros a graça de um pai. Que a mulher seja um céu de ternura, aconchego e calor. E que os filhos conheçam a força que brota do amor” (Oração da Família, Pe. Zezinho).



+ Confiança na Igreja: o presbítero está para a Igreja assim como o sol está para o dia. Só é possível compreender o ministério presbiteral como serviço à Igreja de Jesus Cristo, que é o Povo de Deus. Toda vocação, e em particular, a vocação sacerdotal, é um chamado de Deus para o exercício do múnus sacerdotal de Jesus: ser profeta, rei e pastor. A fecundidade do ministério sacerdotal está diretamente ligada à fidelidade a Deus que se manifesta na fidelidade à sua Igreja. A consciência viva e atenta da missão recebida no sacramento da ordem, no dia da ordenação presbiteral, faz com que o presbítero dedique-se com confiança e serenidade ao serviço do Povo de Deus. É dai que nasce também o sentido profundo de responsabilidade diante de Deus que o chama para edificar a sua Igreja.



No batismo recebemos a fé da Igreja; esta fé se manifesta na obediência às suas orientações e na frequência aos seus sacramentos. O Presbítero tem a missão de não só frequentar a vida sacramental da Igreja, mas também de oferecê-la generosamente a todo o povo a ele confiado.



Nossa Igreja recebeu, nas suas origens, através dos Apóstolos, a fé em Jesus e assim é perseverante no “ensinamento dos apóstolos” (cf At 2, 42). Agora é nossa vez de acolher esse “patrimônio da fé”, enriquecido por dois mil anos de testemunho dos santos e dos mártires, e pela experiência da Igreja, ao longo dos séculos. Por isso acreditamos que a nossa fé é fruto das sagradas escrituras – Palavra de Deus - e da tradição da Igreja – experiência vivida e explicada pelos santos padres da Igreja.



A transmissão da fé aos outros é parte essencial da missão da Igreja; sem isto o dom precioso da fé deixa de ser passado para frente e se extingue. Portanto, a animação e a condução da comunidade de fé é o coração do exercício ministerial do presbítero, recebido e exercido como uma vocação, uma graça divina, um dom do Espírito Santo.  Por isso, o que a Igreja transmite, não deve ser visto como uma ideia privada e subjetiva de alguém, ou como uma “doutrina particular”, segundo o gosto do presbítero, mas sim, como um “patrimônio” da Igreja, comunidade de fé.



+ Confiança em Deus: a confiança brota da experiência de Deus. Afinal, o cristianismo não é um conjunto de normas ou de leis, que uma vez aprendidas, aplicadas ou seguidas fazem da pessoa um bom cristão.



Ele é sim uma experiência de Deus que se faz. Viver a fé, portanto, não é aprofundar uma doutrina. É experimentar a alegria do amor no seguimento a Jesus Cristo. Esta experiência provém de uma relação de amizade com o próprio Deus que se faz na oração. É na oração que acontece o encontro com o Senhor. É neste contexto que São João da Cruz ensinava os seus fieis: “Cristão que não reza é como uma brasa que vai se apagando dia a dia, até tornar-se cinza”.



Conta-se um fato referente a uma entrevista de Madre Tereza de Calcutá. Na ocasião um jornalista, interessado em saber sobre suas horas diárias de silêncio frente ao sacrário, lhe pergunta: “madre Tereza o que a senhora faz durante horas frente ao sacrário”? Ela então responde: “fico conversando com Deus”. E ele lhe pergunta: “e o que a senhora diz a Deus durante todo esse tempo”? “Eu não digo nada, eu só escuto”, explica madre Tereza.  O jornalista então intrigado pergunta: “e o que Deus diz à senhora então”? “Ele não me diz nada, ele só me escuta”, simplifica madre Tereza. “E se você não tem capacidade para compreender este tipo de relacionamento, eu não tenho como te explicar com palavras”, conclui a sábia e santa mulher.



Às vezes fico pensando na saudação ou conversa do anjo com Maria, sob forma de oração: “Não temas Maria, encontraste graça diante de Deus” (cf. Lc 1,30)... Aquilo que ele vinha anunciar-lhe da parte de Deus não tinha sido imaginado e muito menos pensado ou desejado por Maria. E por isso interroga “e como é isso possível?” (cf. Lc 1,34). Todos nós conhecemos a resposta do Anjo. Sabemos também que esta resposta certamente não tirou todas as dúvidas de Maria. Porém, ela assume com confiança aquilo que aprendeu em sua base familiar: “Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” (cf. Lc 1,38). O sim de Maria não se fundamentou nos seus conhecimentos nem nas suas forças. Mas porque confiava em Deus, disse sim. Agora a sua vida estava ancorada nas promessas do Deus de seus pais, em quem confiava plenamente e se mantinha unida na oração. Este é o princípio básico de uma vocação na Igreja.



+ Acima de tudo o AMOR: “O amor é compassivo, o amor é serviçal; o amor não tem inveja, o amor não busca o mal. O amor nunca se irrita, não é descortês; o amor não é egoísta, o amor não engana. O amor tudo desculpa, o amor é caridade; não se alegra na injustiça, é feliz só na verdade. O amor suporta tudo, o amor em tudo crê. O amor guarda a esperança, o amor sempre é fiel. Nossa fé, nossa esperança, junto a Deus terminará; mas o amor será eterno, o amor não passará”.



É baseada nesta experiência relatada por Paulo, no capítulo 13 da carta aos Coríntios, que se deve exercer toda atividade cristã e, acima de tudo, o ministério presbiteral. O próprio Jesus orientava seus discípulos: “não fostes vós que me escolhestes; fui eu que vos escolhi e vos designei, para dardes fruto e para que o vosso fruto permaneça... O que eu vos mando é que vos ameis uns aos outros” (João 15,16). Jesus mesmo demonstrou que a maior prova de amor é doar a vida pelos irmãos. Não é por menos que insistia tanto com seus discípulos: “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois os meus discípulos: se vos amardes uns aos outros ” (Jo 13, 34-35). 



Na sua própria vida Jesus ensinou, através de palavras e atos, que amar uns aos outros como ele amou é fazer o bem de forma desinteressada, de forma gratuita e permanente. A confiança não vem do retorno recebido, mas, do próprio amor de Deus que se tem dentro de si mesmo. Por isso, quando estou envolto nos questionamentos sobre a vida, quando os meus planos não saem conforme o idealizado, quando percebo que à minha volta não existem só as pessoas que torcem pelo meu ministério, e quando a minha fé está quase se esvaindo, grito dentro do meu coração, assim como São Paulo: “Sei em quem pus a minha confiança”.



Assim, renovo a minha fé no meu Senhor, pois sei que fora deste relacionamento entre salvo e salvador não existe lugar adequado para encaixar a vida de nenhuma pessoa, muito menos a de um presbítero.



A vida do presbítero é uma vida de encontro: viver é encontrar-se.



É na história que a vida humana se expressa. O ser humano entra para o mundo histórico-temporal; ali nasce, cresce, se realiza ou não, e sai. Por analogia poder-se-ia comparar a história a um grande palco onde o artista entra, apresenta sua peça e sai no devido tempo. Porém, a vida não é simplesmente uma sucessão de fatos; ela é bem mais que nascer, crescer e morrer. Viver é entrar na história em um determinado tempo, em uma cultura específica, fazer escolhas, tomar decisões, e aí, descobrir as razões pelas quais se vive, isto é, o sentido da existência.



O ato de viver no mundo, se manifesta nas relações consigo mesmo, com o seu entorno e com o transcendente; é nestas relações que o homem se manifesta como ser temporal. É nesta temporalidade que é chamado à responsabilidade. A consciência histórica aparece quando o ser humano se dá conta dos fatos, consegue ler e interpretar estes fatos com sabedoria e, em consequência, responde às necessidades do seu tempo. Em outras palavras, assume sua missão neste mundo.



+ Encontro consigo mesmo: “Conheça-te a ti mesmo”, dizia o filósofo Sócrates. Descobrir o que a pessoa é em si mesma, porque se vive e o que está fazendo neste mundo, são passos importantes para a realização pessoal e para a ajuda dos irmãos na caminhada.



Sabe-se que cada pessoa tem uma história própria com elementos recebidos e sedimentados no seu meio ambiente; portanto, a pessoa traz consigo um conjunto de contribuições ou valores agregados que não podem ser ignorados no seu “jeito de viver”. Este processo de agregação de valores ou aquisição de conhecimentos nunca se esgota e precisa ser sempre atualizado. O mundo provoca, exige perguntas e respostas cobrando um agir eficiente. O padre não pode negligenciar estes dados na sua história e missão. Conhecer seus valores e limites é fundamental para uma atuação missionária consciente e eficiente. Isto só é possível através de uma reflexão permanente sobre seu ser e seu agir no mundo, frente à missão recebida.



+ Encontro com os outros: “Encontrei o sentido da minha vida, ajudando os outros a encontrarem o sentido da vida deles”, dizia Victor Frankl, fundador da Logoterapia e sobrevivente de vários campos de concentração nazista. A disposição para ir ao encontro do outro, assim como compreender seus problemas para ajudá-lo a superar as dificuldades, é elemento importante na composição do mapa missionário do presbítero. O exemplo maior a seguir é do próprio Jesus. As atitudes do Mestre são balizares neste quesito:



1                    - Seu encontro com a samaritana (Jo 4, 4-30): usando do elemento água e de uma necessidade básica estabelece-se uma relação dialogal e de descoberta de um sentido existencial até então não encontrado. Este evento constitui-se como um dos mais belos encontros salvíficos registrados na Bíblia. Emerge do diálogo o sentido mais profundo e iluminador capaz de nortear a vida da interlocutora de Jesus.



- Seu encontro com os discípulos de Emaús (Lc 24, 13-35): neste episódio constata-se uma profunda “crise existencial” a ponto de não reconhecerem, Jesus no caminho. A falta de explicações para tudo o que viera de acontecer e a tristeza decepcionante diante dos fatos, não permitem alargar os horizontes e abrir novas perspectivas de futuro. É no 1 diálogo com Jesus que novos horizontes se abrem e descobre-se, então, o verdadeiro sentido dos fatos até então inexplicáveis.



2                    - Seu encontro na fatalidade de Lázaro (Jo 11, 1-44): fato consumado, nenhuma esperança à vista neste episódio. Mesmo nesta situação limite há uma ação de Deus revertendo o dramático quadro.



Em todos estes casos e outros similares, percebe-se que a experiência de Deus vai muito além da crença em um conjunto de normas ou doutrinas. O encontro cria vínculo e este vínculo assegura a presença da pessoa na vida da Igreja. O presbítero está para as relações com os outros assim como a dobradiça está para a porta. Assim como a dobradiça permite à porta de abrir e fechar, assim também, o encontro do padre com os fieis, no quotidiano da vida, deve abrir as portas da comunidade para o acesso de todos à vida eclesial.



+ Encontro com Deus: É notório, em todos estes encontros de Jesus, que seus interlocutores acabam por criar um vínculo tal, capaz de agregar novos valores às suas vidas assim como torna-los discípulos, assíduos seguidores até ao martírio, se necessário. Esta mudança não é só estratégica; é sim comportamental, mudança de atitude e de postura diante da vida. 



Na vida presbiteral, o encontro pessoal e permanente com Deus, além de substanciar a própria vida do padre, interfere na espiritualidade do povo de Deus a quem serve como missionário de Jesus Cristo. O mesmo amor que se manifesta no seu jeito de relacionar-se com Deus deve também se fazer ver nas relações com aqueles a quem foi destinado a conduzir e servir. Não é por menos que Jesus, referindo-se ao relacionamento com o “outro”, o coloca como padrão de salvação ou perdição, conforme o capítulo 25 do evangelista Mateus: “eu tive fome e me destes de comer, eu tive sede e me destes de beber, estava doente e me socorrestes, preso e me visitastes, nu e me vestistes...”. Portanto, o fato de estar em comunhão com Jesus Cristo envolve o presbítero no seu ser «para os outros», fazendo disso o coração do seu ministério.



Conclusão



Agradeço a todos aqueles que, nestes vinte e dois anos de vida presbiteral, me ajudaram a compreender as verdadeiras dimensões deste ministério a mim conferido pela Igreja, em nome de Deus. Revendo esta curta, mas significativa história faço eco à voz do Apóstolo Paulo (cf. 2Cor 12, 1), que não se orgulha daquilo que fez, nem da sua força ou de suas atividades e sucessos, mas se orgulha da ação que Deus realizou nele e por meio dele.



 O mesmo Apóstolo dá a tonalidade do verdadeiro trabalho missionário em Filipenses 3, 12-16: “Não que eu já tenha recebido tudo isso, ou já me tenha tornado perfeito! Mas continuo correndo para alcança-lo, visto que eu mesmo fui alcançado pelo Cristo Jesus. Uma coisa, porém, faço: esquecendo o que fica para trás, lanço-me para o que está à frente. Lanço em direção à meta, para conquistar o prêmio, que do alto, Deus me chama a receber, no Cristo Jesus”.